CAROLA E TCHELO COM UMA PENETRA NA FOTO

Cheguei em La Paz na madrugada e me instalei em um hotel digno de um filme de Hitchcok, mais fedido e feio impossível. Na manhã seguinte fui à agência local da patrocinadora e fiquei no escritório trabalhando, enquanto a loja estava sendo preparada para a coletiva. Os repórteres foram chegando separados e falei do projeto umas cem vezes. À noite, os concessionários me levaram a um restaurante mexicano e depois saímos para bailar.
Para minha surpresa, às 2 da manhã o som para e a festa acaba. Fato estranho para uma capital latina, mas é assim e ponto. Em La Paz, as casas noturnas obedecem esta lei, que pena. Não me recordo se foi nesta cidade ou se foi em Cochabamba, que meu pai disse que quando aqui esteve, se enamorou de uma mulher que, mais tarde, viria a descobrir que era a namorada do traficante local e que tocou ele daqui. O velho era foda, cheio de histórias também. Bem, de qualquer form, eu fiquei atento a isto, e, como não quero envolvimentos amorosos, acredito que, por esse sufoco não passarei.

La Paz é como qualquer cidade grande, com prédios, comércio, trânsito caótico e muita gente por todos os lados. Mas é charmosa por ser cercada de montanhas rochosas e pela altitude. No dia seguinte, na parte da manhã, falei com dois jornalistas e consegui publicação sobre a expedição por todo o ano. Eles estarão nos acompanhando. O resultado da coletiva foi muito legal porque aparecemos nos principais noticiários e jornais locais.
Na parte da tarde, me encontrei com o Tchelo no aeroporto. Arrumamos o carro e não paramos de falar por um segundo. Fiquei até com falta de ar. Traçamos um cronograma de deslocamento juntos, respondemos nossos e-mails, mandamos fotos e disquetes para o Brasil, preparamos todo o carro e dormimos na própria oficina, cada um em uma Explorer. Que luxo!!
Visando ganhar tempo, saímos às 5 da manhã e, quando chegamos na fronteira, tivemos uma surpresa: toda sexta-feira rola uma feira na fronteira internacional, daquelas em que só se vê cabeças para todo lado, e por isso, só poderíamos cruzá-la às 18 horas. O resultado foi caminhar.
Percebemos que eles vendem de tudo: cabeça de ovelha, artigo para bruxaria, carnes expostas na mesa para todo os gostos, folhas de coca, lagartos, enfim, tudo sendo comercializado no grito e em dialeto local. Nos sentimos dois ETs.

À tarde resolvemos fazer nosso miojo, Argh! E enquanto cozinhávamos, foram aparecendo curiosos de todas as partes para olhar, perguntar se o fogãozinho de camping era a gás, se podiam comer, de onde éramos, etc. Sem exagero, o carro ficou cercado por mais de 30 campesinos.
A principio ficamos assustados, mas depois compreendemos a inocência deste povo andino que é muito isolado do mundo. Só quando acabamos de comer é que eles foram saindo um a um, desejando boa sorte.
Os trâmites na Bolívia sempre são complicados. Os policiais fronteiristas pedem dinheiro para tudo. Nós dizíamos que já havíamos passado outras vezes por lá, que o valor estava errado e que não íamos pagar, nisso o preço já reduzia pela metade e assim fomos seguindo viagem para o Peru.

No Peru, os trâmites foram tranqüilos e não pagamos um centavo. Conhecemos um casal de peruanos, Manoel e Roberto que nos falavam das belezas de seu país. Por que as pessoas não respeitam o direito dos homossexuais? Se cada um cuidasse da própria vida o mundo seria muito melhor, mais tolerante, mais cool.
Às 19 horas já estávamos em estradas peruanas. Nossa idéia era ir direto a Cuzco, mas às 2:30h da manhã os corpos não resistiram e dormimos no carro mesmo, em frente a um posto rodoviário. Depois de três horas seguimos em frente e às 7:30h da manhã já estávamos em Cuzco. Caminhamos pela cidade em busca de hotel, informações das ruínas e Macchu Picchu. Ficamos em um hotel um pouco afastado, mas seguro. Dizem que Cuzco é uma cidade perigosa, não presenciamos nada, mas é bom não facilitar.

O dono do hotel em que ficamos se chamava Wilber. Ele tem 23 anos e é aquele tipo ninfomaníaco, só fala de mulher, cheio de historinhas, mas é um cara engraçado e bacana que nos ajudou muito em relação ao turismo no Peru. Tchelo adorou a possibilidade de Wilber lhe arranjar alguma boliviana, mas os dois ficaram no zero a zero.

Nós enriquecemos o vocabulário dele com várias palavras em português e às 4 horas da manhã, levantamos para pegarmos o trem para Macchu Picchu. Com muita dor no coração abortamos o caminho Inca devido à falta de tempo. Infelizmente não dá para se fazer tudo e algumas coisas vão se perder no meio do caminho.

De trem e ônibus, em quatro horas e meia se chega às ruínas de Macchu Picchu, que realmente são imperdíveis para quem gosta de meditar um pouco. É uma cidade de pedra nas alturas.
É sempre bom refletirmos sobre o motivo de civilizações tão avançadas para sua época, terem simplesmente se extinguido. Curtimos o silêncio do lugar e toda a sua paisagem, fotografamos e filmamos toda esta maravilha.

Nas ruínas, conhecemos um alemão, Yurgüen, que está fazendo o mesmo caminho que a nossa Expedição. Trocamos informações e voltamos para Cuzco conversando sobre as diferentes culturas, pessoas e países. Em Cuzco compramos umas blusas de lã, preparamos nosso carro e seguimos para Arequipa, praticamente voltando para o sul do Peru.
Arequipa

Em Arequipa rolava um boato de terrorismo em Ayacucho e, como gastaríamos o mesmo tempo, resolvemos fazer toda a costa do país. Foi legal dirigir pela costa. A estrada está ótima, mas o visual não podia ser mais desértico.
Paramos em Paracas, conhecemos toda a Península, que tem uma paisagem de água azul e deserto árido com pedras, muito interessante para quem mora em um país tropical.
Paracas

Seguimos para Nazca e conferimos o trabalho dos Incas, figuras feitas no chão do deserto, gigantes e impressionantes. Tiramos algumas fotos e paramos em San Bartolo, uma cidadezinha à beira mar, super simpática.
Surfamos no final da tarde, o que foi maravilhoso para quem só estava vendo deserto por alguns dias.
Eu, surfando as olas peruanas

À noite provamos o ceviche, comida típica feita com peixe quase cru, abóbora e muita pimenta, super saborosa.

Na manhã seguinte fomos para Lima, onde eles estão prestes a lançar um carro como o nosso, uma diesel 4x4. Chegamos em boa hora. Enquanto explicávamos o projeto e o que faríamos, eles prepararam tudo para a coletiva. No fim da tarde, com a concessionária cheia, falamos por uma hora e depois fomos atendendo todos os que tinham uma pergunta para fazer.
Daqui vamos para o Equador.